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Entrevista Sovolei a...
MANUEL BARBOSA
Foto:sovolei
![]() Manuel Barbosa é um técnico vencedor. Na carreira de 9 anos como treinador de voleibol, coleccionou já 9 títulos nacionais – 6 campeonatos (4 na A1, 1 na A2 e 1 na 2ª Div) e 3 Taças de Portugal – à razão de um título por época.
Se este feito parece inédito, mais ainda foi a passagem aos 8ºs de final da Top Teams Cup 2007 depois de derrotar a equipa detentora do título e também a última conquista na A1 sem derrotas.
Mais do que um determinado treinador, é um bom gestor de recursos humanos, um grande incentivador, um exigente professor, um bom amigo e um leal companheiro,diz quem o conhece. Numa palavra, é um Manager.
Mais um título nacional, o 4º. No total já conquistou 9 títulos em 9 anos. Qual a razão deste sucesso?
O sucesso foi, ao longo destes anos todos em conjunto com a minha equipa técnica e os directores que sempre nos apoiaram, termos – tanto no CAT como no FAC – escolhido excelentes jogadoras, que além disso eram também excelentes pessoas. Claro que neste processo anual de escolhas erramos algumas vezes, quer em termos de atletas estrangeiras, algumas delas a pensar que vinham para o clube “passar férias”, quer atletas Portuguesas algumas delas apelidadas como o futuro do voleibol em Portugal que se revelaram apostas menos acertadas, de acordo com a exigência que pensamos para o clube. Depois, foi preciso um árduo trabalho e muita vontade de vencer. Ao contrário do que muitas pessoas diziam e dizem que nós só ganhávamos por ter muitas estrangeiras, agora somos das equipas com menos estrangeiras e voltamos a ganhar (e continuaremos a fazê-lo), por isso deve haver outra desculpa.
Há muita gente que gosta de si e aprecia muito o seu trabalho, mas também há uns que o criticam por ter vindo do futebol, chamam-lhe “O futeboleiro”. O que tem dizer destas críticas?
De facto há algumas pessoas ligadas ao voleibol, que dizem que vim do futebol e que eu e a minha equipa técnica não percebemos nada. Nunca escondi que vinha do futebol, e aliás tenho muito orgulho nisso. Mas vejamos, será que alguém minimamente inteligente acha que todos este títulos ganhos em 9 anos é fruto de mero acaso? Será que foi só sorte? Será que as jogadoras jogam sozinhas? Será que temos sempre 12 estrangeiras? Será que temos sempre o orçamento maior? Claro que se as pessoas forem bem intencionadas sabem que isso não é a realidade destes anos todos. O que é certo é que muitas dessas pessoas mal intencionadas nunca ganharam nada no voleibol. Participamos em mais competições e ganhamos mais vezes do que pessoas “entendidas” e conceituadas que andam aí e que ficam contentes por nunca ganharem nada.
Este título foi ganho com 33 vitórias consecutivas, um feito histórico. Mas longe das 53 vitórias seguidas, que conseguiu entre 2001 e 2003 no FAC.
(Risos) Sim, é verdade. Mas em Portugal – não sei, mas até seria curioso confirmar – devemos ser das únicas equipas técnicas que ganhou os campeonatos nacionais da 2ª divisão, da A2 e da A1 sem derrotas, será que as pessoas acreditam de facto que é só sorte? E isso, quer queiramos quer não, é uma marca que deixamos no voleibol português, e como disse antes, aqueles que ficam contentes por ficar a meio da tabela, e dizem que nós só ganhamos por ter muitas estrangeiras e por termos orçamentos maiores perdem a razão, já que ao longo destes anos ganhamos em todas as divisões. Por exemplo, há 2 anos atrás ganhamos à equipa do Asystel Novara que tinha um orçamento de 3,5 milhões de euros. Provavelmente essas pessoas gostam de encontrar desculpas para os seus fracassos. Desculpas de mau perdedor.
Dos treinadores da A1, deve ser o que tem a mais curta carreira, no entanto é capaz de ser o que tem mais títulos e mais feitos nos últimos anos. A razão do sucesso, ainda por cima numa equipa tão jovem como a do CAT, não pode ser só sorte. O que há mais?
Tal como disse, mais do que escolher boas jogadoras, é escolher boas pessoas. Tenho atletas que estão comigo há 8 anos, outras há 5 anos, enfim… quase todas têm muitos anos no clube e muitos anos comigo e as que gostam de trabalhar, de cumprir e de vencer gostam de estar comigo muito tempo. Já as que gostam de brincar, de sair à noite, de ir para as festas o ano todo, não gostam com toda a certeza de estar connosco. Essas atletas que falam mal de nós e do clube, por vezes esquecem-se que só ganharam alguma coisa quando estiveram connosco e depois quando saem não ganham nada. Às atletas desse tipo, damos obviamente facilidades para irem embora.
Temo-lo visto também variadas vezes nos jogos da formação. Essa é uma aposta forte do CAT nos últimos anos, está muito empenhado nessa área…
Estou, mas isso nem sempre é bem visto. Há uma coisa curiosa, as pessoas em Portugal gostam muito de dizer mal dos que ganham e dizem mal do nosso clube quando vamos buscar jogadoras aos escalões de formação dos outros clubes, mas isso só acontece aqui em Portugal. Eu acho que os clubes devem ir buscar aquelas jogadoras que são as melhores e que no futuro podem render mais, é essa a política que nós temos. Não somos donos das nossas jogadoras, nem ninguém é dono de nenhuma jogadora, portanto elas e os pais são livres de escolherem o clube que querem. Nós iremos sempre tentar ir buscar aquelas jogadoras que nos interessam para que a equipa de formação possa ser competitiva, e para que no futuro possam ajudar a tornar a equipa sénior do CAT mais forte. Mas ainda assim, nós não temos só jogadoras vindas de fora, coisa de que ainda este ano fomos acusados. Por exemplo, nas juvenis, temos 3 atletas que vieram de outros clubes, mas há jogadoras que estão no CAT há 5 anos. Muitas irão ser o futuro da equipa sénior, e aliás já temos jogadoras que vieram da formação e foram campeãs este ano. Ainda em relação a convidar essas jovens atletas a vir para o nosso clube, num passado muito recente não era visto com bons olhos, mas posso adivinhar para esta próxima época irão acontecer bastantes alterações de atletas de formação entre vários clubes. Será que aquelas pessoas que criticaram anteriormente, concordam agora que essas trocas fazem parte do desporto?
De qualquer das formas, as próprias atletas e os pais se querem ver futuro nas filhas, também gostam de se juntar aos melhores…
Sim. Aqueles pais que querem ver as filhas, evoluírem, serem cada vez mais competitivas e estarem num clube com regras, sabem que estão bem connosco. Tentamos incutir a todas um espírito forte de vitória. É isso que temos vindo a fazer, e continuaremos a fazer, enquanto estivermos lá.
Está na Trofa há 5 anos – desde a fundação do clube – o que mais pode dar ao CAT? O que podem ainda juntos conquistar?
Vamos tentar todos os anos conquistar títulos. Todos os anos lutar por vencer a taça e o campeonato. Fazê-lo o maior número de vezes possível, e mais vezes do que os nossos adversários.
A falta de apoios impediu a equipa de participar nas provas europeias nos últimos 2 anos, depois do brilharete em 2007 – que ainda há pouco referiu – frente ao Novara, sente-se triste por isso?
Sim, quer dizer… toda a gente gostava de estar numa competição europeia. Mas há uma coisa que temos no CAT: tanto as jogadoras, como a equipa técnica funcionam em sintonia com a direcção. E se neste momento a direcção acha que não há condições para participarmos nas competições europeias, nós aceitamos que isso é o melhor para o clube, apoiamos a decisão e continuamos a lutar com todo o afinco nas competições nacionais.
Mas era um objectivo poder chegar mais longe nas competições europeias, ou isso é praticamente impossível para uma equipa portuguesa?
Não, não é impossível, e ficou provado quando nós ganhamos ao Novara (de Itália) e ao Minsk (da Bielorrússia) e ainda este ano o Ribeirense foi bastante longe nas competições europeias. Agora, tem é de se acreditar, e as jogadoras terem vontade de vencer e estarem motivadas. Assim, é possível irmos longe.
Se equipas como o Ribeirense e o Trofa conseguem esses feitos, porque é que a selecção nacional feminina não consegue resultados, sequer aceitáveis?
Porque não estão as melhores atletas na selecção. Ao longo destes 9 anos em que estou no voleibol, quase todos os anos a selecção tem um projecto novo. Falam num projecto para um ano que acaba por falhar, depois falam num novo projecto para dois anos e falha, depois já é um projecto para as olimpíadas e… falha. Andamos assim de projecto falhado em projecto falhado, as melhores jogadoras não vão nem querem ir à selecção, há também falta de apoios. Por exemplo, pudemos verificar que ao longo deste ano as várias pessoas a trabalhar em exclusivo para a federação, foram ver meio (!!) jogo do CAT. Nem na final estiveram. Não falam com os clubes, não falam com as jogadoras, e depois escolhem as jogadoras sem as ver. As pessoas estão há já muitos anos na federação, têm sempre projectos diferentes que falham e enquanto for assim, a selecção feminina é só para passar tempo.
Acha que isso é falta de capacidade dos técnicos da selecção ou é mesmo falta de estratégia da direcção da FPV?
Não acredito que seja falta de qualidade dos técnicos. Agora uma coisa é certa, Federação e equipa técnica não conseguem motivar as melhores jogadoras para irem à selecção, e todos os anos dizem “agora é que vai ser” … e os apoios que o feminino recebe em relação ao masculino são completamente díspares. E isso vê-se bem através dos jogos que são transmitidos na televisão, quase todas as semanas vemos jogos masculinos, e femininos não há. Não existe igualdade no voleibol entre homens e mulheres, tal como eu já disse há um tempo atrás nós estamos num país de 3º mundo em que o feminino é completamente esquecido.
Proferiu essas palavras precisamente no fim do jogo que decidiu o título este ano, numa partida em que não esteve presente ninguém da FPV e que decorreu à mesma hora e no mesmo dia da final masculina. Existe aqui uma falta de visão?
É fácil, não aparece ninguém da FPV porque o jogo não está a ser transmitido na TV, e também porque é voleibol feminino. Provavelmente alguns nem sequer sabiam que estava a decorrer a final feminina. E o que eu não entendo, nem entendeu o Mauricy – treinador do Ribeirense – é como numa final de um campeonato, nem umas medalhas existiram. Há jogadoras dos dois clubes que, se calhar vão sair e não voltarão, e passaram por cá sem sequer ter uma prova ou uma lembrança da prestação que tiveram. O feminino paga – tal como o masculino – as inscrições, tem os mesmos deveres e obrigações mas vemos as atletas serem completamente discriminadas. Enquanto for assim as equipas femininas irão ter mais dificuldades e o campeonato ressentir-se-á disso mesmo. É por essas e por outras que as próprias jogadoras, quando vêem a realidade, se recusam a ir à selecção.
Está a querer dizer que a diferença de tratamento entre o feminino e o masculino tem muito a haver com a sede de mediatismo dos membros da FPV…
Não… repare, eu volto a repetir que, a este nível, somos um país de 3º mundo, não somos um país da Europa. Se olharmos para as grandes potências do voleibol europeu, vemos que dão tanta importância ao feminino como ao masculino. O mesmo devia acontecer em Portugal. Se temos os mesmos deveres e obrigações, alguém da FPV deveria estar presente na final da competição feminina, devia haver transmissões televisivas, etc. Além disso, os técnicos da selecção deveriam também estar presentes, já que pela lógica, na final devem estar as melhores jogadoras.
Vejo que há uma grande falta de comunicação entre a FPV e os clubes. Uma coisa que, Alessandro Chiappini (técnico italiano da selecção feminina Turca), me disse há pouco tempo, ser fundamental. Dizia ele que em Itália, uma das maiores potências, essa comunicação é muito estreita.
Claro, isso acontece em países do 1º mundo. Em relação ao CAT não há comunicação nenhuma entre nós e os técnicos da selecção. Em relação aos outros clubes não sei, não posso falar. Suponho que já conheçam bem todas as atletas e, por isso, não precisem de falar com os clubes…
Em Portugal parece haver um perigoso ciclo vicioso para o voleibol feminino. A FPV despreza-o porque a TV não está presente, e a TV não está presente porque a FPV não o promove. De qualquer das formas a comunicação social também não ajuda muito…
Sim… ainda há pouco falamos da falta de apoios. Se as TVs dessem mais relevo ao feminino… Nós temos um canal de serviço público, a RTP2, que praticamente não transmite desportos femininos. Temos também 3 canais exclusivamente desportivos que só transmitem futebol. Se for preciso transmitem repetições de jogos de há um ano atrás e desprezam as outras modalidades, em particular o desporto feminino, não só voleibol mas outros. Também na comunicação social escrita temos vários jornais diários que ás vezes lembram-se e publicam um quadradinho a dizer apenas o resultado do jogo da final sem dar relevo nenhum. Ora isso contribui e muito, para a falta de apoios.
Fez-me lembrar, há 2 anos, depois da vossa vitória frente ao Novara o treinador da equipa italiana perguntava-me como era possível em 3 jornais desportivos, apenas um ter uma pequena notícia a falar de um feito histórico que seria comparável a uma equipa do meio da tabela do futebol português ganhar ao Milan, ao Barcelona ou ao Manchester.
É, infelizmente é verdade. Se fosse no futebol, dava logo direito a 10 páginas. Como é no voleibol, ainda por cima feminino, dá direito a um quadradinho, que já não foi mau. E demonstra a desigualdade de tratamentos que existe da parte das federações e dos órgãos de comunicação social.
Passando a umas perguntas do plano mais pessoal, quais foram as pessoas mais importantes na sua carreira até hoje?
Os técnicos que estão comigo ao longo destes anos todos, o Pedro Novais e o Pedro Almeida, foram importantíssimos. Apoiaram-me sempre, incondicionalmente. Da passagem pelo FAC, realço o Sr. Santos um dirigente incansável. Muito do êxito do FAC deve-se a ele. No CAT, o presidente Tiago Vasconcelos, o Mário Moreira, a Mafalda, o Cândido Gouveia, o Francisco Carriço… enfim, todos os elementos da direcção têm sido fundamentais para a obtenção dos títulos. Uma das pessoas que sem dúvida tem sido fundamental é a Sara Paranhos que está comigo há 8 anos e que desde sempre acreditou que poderíamos chegar à A1 e obtermos conquistas, alias havia pessoas que diziam que ela quando chegasse à A1 era uma jogadora banal. Ora, está provado que essas pessoas percebiam “muito” de voleibol. Devem ser as mesmas que continuam a falar mal de nós. Todo o plantel deste ano foi incrível… a Catarina que também já está comigo há muitos anos e a Juliana Fernandes. A Filipa Duarte que só esteve connosco um ano mais foi excelente. Em suma, todos os que contribuíram para as vitórias foram importantes.
Sente vontade de um dia treinar uma equipa masculina? E a selecção nacional? Talvez um clube no estrangeiro?
Não… para já sinto vontade de, para o ano, ganharmos mais títulos no CAT e provarmos aqueles que diziam que o clube ia durar 6 meses, que afinal já durou 6 anos e sempre a ganhar títulos. O objectivo passa por conseguir chegar novamente á final do campeonato e estar também na final da taça.
Bilhete de Identidade:
Nome: Manuel Barbosa Idade: 40 anos Nacionalidade: Portuguesa Profissão: Treinador de Voleibol, Professor de Educação Física Clubes por onde passou:
Famalicense Académico Clube (Portugal): 2000 - 2005 Clube Académico da Trofa (Portugal): 2005 – presente Títulos Conquistados:
Campeão Nacional A1: 2005, 2007, 2008, 2009 Vencedor Taça Portugal: 2005, 2006, 2007 Campeão Nacional A2: 2003 Campeão Nacional 2ª Divisão: 2002 Campeão Regional: 2002 1/8 de final Top Teams Cup: 2007 Fase Grupos Liga Campeões: 2006 Entrevistas sovolei
Sara Paranhos - Capitã do CATrofa 2008/2009
Alessandro Chiappini - Treinador da Selecção Sénior Feminina da Turquia - 2009
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